Nova Lima Redescoberta: Expedição de Richard Francis Burton

Publicado: 18 de agosto de 2016 por Gustavo Augusto Bardo em Expedicionismo, História da Cidade, Mistérios e Curiosidades, Morfologia Urbana, Nova Lima Redescoberta, Questões e Ações Sócio-Culturais

Dando continuidade ao apelo para que eu também escreva sobre História mais uma vez, desenvolvi então o que talvez se torne uma série de artigos com algum esparsamento de tempo ou de inspiração, a qual dou o nome de “Nova Lima Redescoberta” pois enseja na sua intenção científica o desejo de trazer aos que como eu aqui habitam, seja por nascimento ou migração, eu ainda aqui tendo algumas parcas raízes familiares de antanho, bem antes até que muitos outros migrantes haha, de então saberem coisas esquecidas ou deixadas aos Acadêmicos conhecerem, e que tragam alterações conceituais profundas no modo das gentes daqui se verem.

Muita gente parece desconhecer que um dos maiores cientistas do mundo aqui já esteve, quando fala dos imigrantes que formaram Nova Lima, do seu passado colonial bastante apagado pela carência de pesquisas, ou se exaltando no passado minerador que no entanto ainda continua atrelado à cidade por diversas dependências econômicas; pois é verdade, que no Século XIX, por estas terras caminhou com olhar perscrutador Antropológico e matemática atenção Geográfica, o grandioso e de porte de renome internacional, Richard Francis Burton, descobridor do Lago Tanganica, um dos Grandes Lagos que formam como afluentes da nascente, ao Rio Nilo.

Em seu livro “Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho”, Richard Francis Burton gastou cerca de quatro capítulos para falar sobre o que se conhece hoje como Nova Lima, tendo a mina de Morro Velho e suas redondezas como referência, descreveu hábitos, a urbe, e fez comentários humanistas de um expedicionário que se interessava imensamente pela variabilidade cultural, destoando de boa parte dos Acadêmicos de sua época.

Aqui farei uma resenha desses capítulos.

Voltemos ao “Capítulo XX – Viagem para a Mina de Ouro de Morro Velho”, em que Richard Francis Burton, descreve sua viagem pela Vargem do Cocho d’Água, lugarejo segundo ele outrora de um Tenente Domingos Soares, “um pequeno fazendeiro crioulo” (*crioulo era todo mundo nascido no Brasil ou no império independente de sua mistura genética), “na antiga estrada de Ouro Preto ao então Tijuco”, ele diz que ali haviam 16 ranchos produzindo “cana-de-açúcar, boas batatas e muita lenha para a grande mina inglesa”, fala que por estas bandas foi hospedado por um José Clemente Pereira que a essa época tinha 12 filhos e até fez questão de registrar o rosnado furioso que a cadelinha “Negra” lhe deu!

Ali era muito importante a cachaça, e se recusavam a misturá-la, precisava ser bebida pura, hábito que o expedicionário Richard Burton vincula aos brasileiros, mas na sua sinceridade científica reclama do processo de produção local não poupando críticas, o que faz destes capítulos um descritivo também de problemas de produção:

“Cachaça” ou “caxaça”, a “cachass” dos estrangeiros, é a “tafia” dos escritores franceses, (…) A cachaça é o “schnapps”, o “kwass”do Brasil. O tipo mais comum é destilado de refugo de melaço, metido em um alambique velho como as pirâmides e rico em azinhavre. O peculiar óleo volátil ou éter não é retirado da superfície; o gosto é de cobre e fumaça em igual proporção, e, quando a catinga contamina a bebida, não sai nunca mais. Se assim não fosse, poderia ser aceita na Europa, como a aguardente de milho do Canadá e a aguardente de batata de Hamburgo, da qual é feito o verdadeiro conhaque. ( página 169)

Mas em seguida ele também fala da cachaça feita de cana-caiana e da cachaça feita de cana madeirense à qual ele chama de “crioulinha” ou “branquinha”, que ele diz que é mais “fresca” e faz menos mal. A cachaça era bebida como um feito heroico a despeito de seus males à saúde, mas também era usada “para banhos em caso de insolação ou para tratar das mordeduras dos insetos”, e diz que era costume o hospedeiro colocar uma garrafa de cachaça ao lado da bacia de água quente.

Apesar das críticas à maneira de produção, ele ainda gasta um bom tempo de escrita falando do “restilo” ou redestilação da cachaça para remover o cheiro do melaço, que era chamada de “vinho brasileiro”, e ainda fala de outro processo de redestilação  chamado “lavado” que consistia em ser “destilado em argila queimada, e não se torna assim, álcool absoluto”.

Ele fala que haviam muitas brigas violentas por causa do consumo da cachaça, inclusive citando dados estatísticos! E parece se deliciar com esses detalhes críticos que são mais de grande importância para pesquisas sociais.

Menciona Santo Antônio do Rio das Velhas, que segundo a nota é referência para Santo Antônio do Rio Acima e Santo Antônio do Rio Abaixo! Fala que sua data de fundação era desconhecida, mas sugere que date do mesmo tanto das minas do Batatal (referências a pepitas de ouro que eram encontradas com a mesma facilidade que batatas doces), Soco, Engenho da Água e Papamilho, e diz que todas produziam ouro abundante. Diz que o povoado tinha uma centena de casas em 1801, 1200 habitantes em 1820, e entre 1086 a 1300 habitantes em 1847. Fala que na vizinha Rio Acima, se dormia um sono de morte, que a povoação era bastante silenciosa inclusive em sua capela, mas tinha já casas de comércio e oficinas, agricultura e criação de gado, mas o preço dos transportes impedia a exportação. Aos domingos o pároco discutia os escândalos e não apenas realizava o culto!

Chegando já a falar de Nova Lima, ele começa por Santa Rita, “(…) avistamos à margem esquerda do rio uma igrejinha caiada de branco, Sta. Rita, e , no rio, havia duas pilastras, outrora ponte, ” fala da Mina do Morro da Glória e que pertencia a cinco proprietários, e ali também a Mina de Santa Rita, e reclama que se dizia que ela ficava a uma légua de Morro Velho e diz “se assim for, é a légua mais comprida que já andei na minha vida” deixando claro que o nosso mineiro “logo ali” já era influente naqueles tempos! Fala que essa mina de Santa Rita pertencia a uma Dona Florisbela da Horta “viúva que explorou sua propriedade com a energia brasileira dos tempos antigos”, sugerindo a meu ver o trabalho escravo, e que ali havia ouro, minério de ferro, cristal, e que ali morreram muitos negros, em especial de disenteria e inflamação do peito.

Ele fala que a ponte de Santa Rita era frequentemente reparada pela Companhia Inglesa entre 1853 e anos seguintes, e ganhando seu toque final em 1859, mediante Mr. Gordon. Diz que nas redondezas então da Morro Velho, e já chegado a ela, havia uma propriedade de um Fernão Pais comprada em 1862 pela Grande Companhia por £11.583. Cita novas minas que surgiram como Gaia, Guabiroba, Samambaia, Serviço Novo, Mato Virgem, e outras, fala das intervenções infraestruturais gerando inclusive abertura de cursos artificiais de água, e já tratando da redondeza, que poderíamos entender como o povoado, ou povoados, que hoje são Nova Lima, ele faz esse interessante descritivo o qual repete capítulo adiante:

“Galgamos, então, uma subida de argila vermelha, descemos uma ladeira de igual formação, depois avançamos por outra íngreme elevação, chamada apropriadamente, Monte Vidéu (segundo nota do latim “Montem Video”, “vejo o monte”). Essa Bela Vista ofereceu-nos o primeiro vislumbre de nosso destino e trouxe alegria aos nossos corações. Em frente, erguem-se as altas torres do paredão encimado pelo pico de Curral del Rei, com sua cruz de madeira. mais perto e em um horizonte mais baixo, fica o Morro Velho, também coroado por uma cruz e suportando nos ombros Timbuctu e Boa Vista, os bairros negros de casas de paredes brancas e telhados vermelhos.” (página 172)

Capítulos à frente, ele voltará a falar do Timbucto, como interessado que era em África e seus povos,

“As casas se estendem da margem setentrional do Ribeirão até as elevações, a uma altitude de cerca de 150 metros; ali está o mais alto bairro negro, “Timbuctoo”, saudosa lembrança do que pode ter sido a terra natal, e aqui moram os negros de Cata Branca. A meio caminho, vêem-se as diversas e sombrias estradas da grande mina e, embaixo, ficam outras instalações: ferraria, oficina de trituração e os escritórios da mina.” (página 194)

Falando ainda da cidadezinha de Congonhas “(…) cujo terreno é uma mistura irregular de fundos e saliências, pontilhados de igrejas e vilas, de jardins e de pomares, e embelezada com o curso de um regato cristalino. No morro da direita, a Fazenda Bela Fama, onde a Companhia mantem uma grande tropa de mulas, utilizada para trazer mantimentos e outros artigos. À esquerda há outros montes e outros picos, com os quais dentro em pouco iremos travar conhecimento” e deixa claro que sentiu enorme alegria em chegar a Nova Lima, e tinha imenso interesse em explorar cada uma de suas partes!

Ele demonstra grande interesse no nevoeiro do Monte Vidéu, e no que ele chama de a Região Negra da “Staffordshire brasileira”. Fala da variedade de frutos da mineração, inclusive o ácido sulfúrico ou a obtenção de pigmentos coloridos do barro com plumbagina. Descreve o Bonfim como entrada de Congonhas do Sabará, atual Nova Lima:  “Uma vereda que segue um corte profundo, com os pétreos remanescentes de uma antiquada calçada, algumas cabanas, a capelinha do Bonfim e uma casa grande, de um fornecedor de carvão, constituem a entrada da cidade” (página 172). Fala que os habitantes daqui raramente acordavam antes das 8 horas da manhã, porque centenas trabalhavam à noite e durante o dia.

Menciona a igreja de Nossa Senhora do Pilar de Congonhas do Sabará,  e reclama que aqui os nomes são compridos! Fala que apesar de sonolenta a igreja era bem tratada. Fala que a praça principal “tem algumas casas de dois pavimentos e enfeitadas, e os dignatários da localidade trataram de assegurar a presença de uma necessidade da vida municipal brasileira, o teatro.”, mas reclama de seu estado tendo apenas naquela época “quinze anos” (página 172) que portanto já era importante desde essa época! Fala que a Matriz foi restaurada por um Fr. Francisco de Coriolano e tinha “uma fachada de três janelas e um frontão coroado por uma cruz; as torres apresentam telhados suíços, virados nos cantos, à moda chinesa de Macau; possivelmente é uma derivação inconsciente da imagem adorada pelos pagãos de Pomeco e Tlascalla. Junto à porta gradeada, há um anteparo curiosamente pintado com as cenas da Paixão, além dos quadros representando as quatorze passagens, penduradas nas paredes.” descreve exatamente assim o também Antropólogo Richard Francis Burton na página 173 deste seu maravilhoso livro!

Falando do comércio, cita que aqui já haviam algumas farmácias e um laboratório entre cerca de 20 estabelecimentos comerciais! E sugere que os boticários (antigos médicos) tinham boa renda, segundo ele, apesar da Companhia Inglesa tratar algumas doenças de graça, as pessoas preferiam gastar nos boticários.

Segundo ele, Congonhas do Sabará, tinha em 1830, 1390 habitantes, e em 1864, 6 eleitores, 211 votantes, e 4000 habitantes, somando ainda cerca de 1000 operários-mineiros. Fala de um Hotel Congonhense de um alemão chamado Sr. Gehrcke, que era empregado da Companhia mas ali hospedava quem não trouxesse cartas de apresentação, e diz que ali também vivia um pintor retratista italiano. Ele pessoalmente desgosta da Igreja do Rosário reclamando da “fachada escura do santuário, sem torre, apresenta um sombrio aspecto, com as pedras que fazem lembrar um bastião; uma inacabada coroa de Portugal e um lugar para as Quinas embaixo, contam a sua história” (página 173), mas na sua reclamação, temos a feição antiga da igreja que hoje é bastante diferente da sua origem!

Para a alegria dos cervejeiros de Nova Lima, ele menciona uma cerveja local! A cerveja Inkerman que era fabricada pelo armazém de Alexander & Filhos, e que incluía a mistura da rapadura, o que segundo ele a tornava “um tanto mais capitosa que o mais picante dos maltes escoceses” e que derrubava muito “sujeito robusto, com tanta facilidade quanto faria uma bala dos russos”. (página 173). Fala ainda da cachaça de Mr. Henry D. Cocking, do Departamento dos Ferreiros, do rancho Melo & Cia. (*não consta que sejam meus parentes haha nessa época meus ancestrais Vaz de Mello daqui eram um Coronel e um Capitão, devem ser outros Melo), e que esse rancho tinha como clientes principais os negros (eu pessoalmente prefiro os denominar por africanos, acho mais respeitoso, mas aqui repito o conceito que ele mesmo usa), fala de um velho hospital cujo jardim foi ocupado pelo ex-feitor Capitão Andrew e por um Sr. Antônio Marcos da Rocha, “Encarregado das Matas e Florestas” em Morro Velho, e que foi empregado da mina de Gongo Soco, essa eu sei para as bandas de Barão de Cocais, já tive o prazer de lá estar em meu curso de Arqueologia Histórica.

Menciona como presbítero o Rev. Armstrong. descrevendo sua capela como de “lindas janelas ogivais muito estreitas e uma cruz ultra original” fazendo a capela “destacar-se entre as vilas esparsas e fileiras de casas” (página 174). Menciona a moradia de Mr. James Smyth, “superintendente do departamento de negros”, como um “bonito bangalô anglo-indiano” em uma pequena colina. E que mais além ficava o Hospital novo e as residências dos médicos Doutores M’Intyre e Weir.  Em possível referência ao hospital, fala de uma “Casa da Tranquilidade” e da lembrança dos “encantos das Galashiels“, uma cidade na Escócia, e que o Dr. Weir fazia essa mesma comparação!

E ao falar do que lembra o “Rego dos Carrapatos” usa a expressão “Rei dos Carrapatos”, fazendo menção a um tipo de vegetação! (página 174)

Cita Mr. Gordon, Sr. George Morgan, Mattew, a Casa Grande,  o Sobrado, onde ficavam os hóspedes segundo ele, e que na Casa Grande havia uma varanda construída para poder receber Sua Majestade Imperial, e diz que a cidade é uma “mistura de Petrópolis brasileiro e de Neilgherry de Ootacamund” deixando no ar uma visão Antropológica, que mistura a influência portuguesa com a da Índia,  trazida parcialmente pelos ingleses pela presença de bangalôs, e embora uma visão bastante pitoresca da cidade que poderá assustar ao leitor ou leitora, mas a mim em meu universo científico me enseja ainda mais curiosidades sobre essa época!

No “Capítulo XXI” ele apresenta notas de interesse econômico falando das produções minerais, começando pelo Ouro, e o comparando à produção da Cornualha, Reino Unido, e com um vocabulário bastante mais Geográfico e Geológico, apesar de manter o ponto de vista crítico no sentimentalismo do ouro, no cultivo de “miseráveis batatas” ao invés da exploração das riquezas do solo, reclama da exaltação do diamante, e fala da espera das pessoas a favor da mineração profunda e da liberação de mais campos à agricultura, mas que sabiam que as terras tinham pouco valor por aqui e que o solo não era muito agricultável. Resume o Sistema de Mineração Brasileiro, a Mineração de Ouro pelos Ingleses em Minas, não poupando menções ao Governo Brasileiro, reduzindo suas participações até chegar a 5% em 1853, e em 1854 diz que as mineradoras inglesas alcançaram as mesmas isenções das minerações brasileiras (página 184)., e segue nesse nível de conteúdo se afastando um pouco da localidade, então não me delongarei sobre esse capítulo, embora seja imensamente útil para a compreensão dos processos econômicos que por aqui transcorreram nesse período!

No Capítulo XXII – A VIDA EM MORRO VELHO” regressa falando da mina e das redondezas compreendidas em Congonhas do Sabará, atual Nova Lima, após falar sobre o bairro dos negros, mencionado mais acima, “Timbuctoo” ou “Timbuctu”, ele cita que sobre o clima daqui “o sol queima de dia, as noites esfriam de repente, e como se queixam os que viajam nas regiões montanhosas do Brasil, as quatro estações da Europa se sucedem no espaço de vinte e quatro horas” (página 194).

Fala das moléstia do fígado como frequentes por aqui, e não parece se resumir ao álcool já criticado antes, mas claramente experimentado pelo expedicionário, reclama também do “toucinho defumado gordo”, e diz que propôr uma alteração de costumes era já visto como uma ofensa, e que a pessoa tomava ódio de quem a fizesse mesmo que apresentada como um “novo ponto de vista sobre a questão”!

Fala da fauna alada como composta da andorinha-americana, do sabiá que amenizava a estação chuvosa com seu canto, e que as chuvas eram fortes no meio do ano e que os pirilampos apareciam no fim de julho e desapareciam no início de maio. E que em agosto haviam alguns aguaceiros de chuvas também! Talvez daí a comparação de antes com a Escócia penso eu, país constituinte do Reino Unido famoso pelas chuvas periódicas.

Fala que Mr. Gordon aqui introduziu o “cassareep”  e que seu molho de pimenta era melhor que o óleo de coco. Reclama que os brasileiros jogam fora o suco da mandioca brava que segundo ele pode ser aproveitado de vários modos embora não se aprofunde sobre a questão, embora cite uma dada utilidade dele como veneno que não vou citar aqui para não disseminar a ideia, quem desejar saber procure o livro!

Cita entre os padres Padre Antonio FreitasPadre Joaquim, volta a falar da Casa Grande, e então se debruça em falar do Rego dos Cristais,:

” O único passeio em terreno plano que se pode dar em Morro Velho ou em suas proximidades é ao longo do Rego dos Cristais. Arriscando muita contração __ dolorosa __ subimos o Morro do Depósito e chegamos à aldeia do Retiro, construída em uma encosta. Ali se erguem, em filas sucessivas, casas de aspecto brasileiro, tendo na frente canteiros de flores e verduras” (p. 196)

PORTANTO FICA CONSTATADO QUE NA VISÃO DE UM BRITÂNICO E INGLÊS QUE JARDINS FRONTAIS SÃO COSTUME BRASILEIRO HAHA!

E fala que nesse Rego os jovens ingleses costumavam se refrescar com banhos. Cita a água nascendo do Morro das Cabeceiras, menciona o Morro das Quintas, o Morro dos Ramos, o Morro dos Pires, o córrego dos Cristais, a ravina do Retiro, dando dados de altitudes e distâncias, e referenciando com algumas instalações de mineração inglesa, e uma garganta profunda chamada “Criminoso”.

Cita as “ladainhas inglesas”, nas capelas protestantes, descrevendo que os mecânicos se sentam no lado direito e os mineiros no lado esquerdo. Diz que os cânticos eram os mesmos das cidades de interior do Reino Unido, e não parece satisfeito com o protestantismo, o anglicanismo e o catolicismo ao repetir as críticas de um Dr. Newman que parecia se queixar da falta do “sublime uso da razão”.  (página 197)

Cita um Padre Francisco Petraglia oficiando no outro lado do Ribeirão de Boa Vista em uma capela licenciada pelo Bispo de Mariana. Falando da capela diz “Os ornamentos não são ricos, o ostentório não passa de uma caixa de relógio com raios metálicos e há certa necessidade de ‘um balde com hissope para a aspersão da igreja e para guardar a água benta’. O padre não despreza o joio que se mistura ao trigo, e é muito querido por todos, exceto por aqueles que se mostram contrariados diante da imensa superioridade de seu ardor religioso” (página 197). Ele ainda segue dizendo que às 10:30 da manhã se encontrava na igreja uma multidão predominantemente composta por negros, alguns brasileiros vinham a cavalo, mesmo quando vinham de perto, e o próprio sacristão era homem de tez negra, e diz que o Sr. Antônio Marcos brincava que “em cada telhado de capela há um buraco pelo qual a ‘pinga’ cai diretamente na algibeira do padre” (página 198) repete o expedicionário e cientista Richard Francis Burton certamente desejoso de fazer perpetuadas as críticas já existentes na sociedade da época! Em teoria a presença da crítica reflete alguma liberalidade. Diz que os brancos se tomavam lugar à frente, e os negros atrás, estando os homens em pé e as mulheres sentadas no chão. Segundo ele, somente nas grandes cidades as igrejas tinham bancos para assentar! As missas eram exemplares apesar dessa segregação, e um São Sebastião de porcelanacrivado de setas ocupava uma mesa próxima, e parece que havia uma competição por cultos rápidos com a igreja protestante.

No capítulo seguinte, dessa parte de sua expedição, “CAPÍTULO XXIII – O PASSADO E O PRESENTE DA MINA DA ‘ST. JOHN DEL REY’ MORRO VELHO” ele volta às cifras de 150.000 cruzados em 1725, e £56.434 12 s. 7d., quando vendeu ao Capitão Lyon.  Diz que para os idos de 1825, cada trabalhador recebia um salário de 5,5 gramas de ouro por semana, e que em dois meses a mina extraía dali a cifra de 24:000$000 com 70 escravos. Fala das alterações tecnológicas após 1840, como a introdução do “tirolês Zillerthal” um engenho giratório mecânico, abolindo o uso da bateia. As novas prospecções por Mr. Herring, e o investimento tecnológico que irei omitir aqui por ser técnico embora seja do interesse da pesquisa com certeza! Cita as gestões de Mr. Thomas Treloar em 1846, de Thomas Walker em 1855, e de Mr. Gordon em 1858, e detalhes de rendimentos após esses períodos.

E por fim no “CAPÍTULO XXIV – A VIDA EM MORRO VELHO (continuação)” volta a falar das pessoas e seus costumes. Fala da revista dos negros, ambos os sexos descalços, 1.100 dos 1452 participavam da “reunião” (Richard Francis Burton também escreve aspas nessa palavra), “As mulheres tendo à frente um piquete de doze meninotas, estavam dispostas em companhias de colunas de seis. Todas vestiam uniforme domingueiro: saias de algodão branco, com uma fita vermelha estreita à altura do terço inferior; xale de algodão, riscado de azul e branco e um lenço de cores vivas, geralmente escarlate cobrindo a carapinha”  (página 207) Diz ainda que ao lado direito perpendicularmente eram colocadas as “mulheres de boa conduta”. E continua “O emblema do primeiro ano é uma larga tira vermelha em torno da bainha da saia branca, substituída por tiras da mesma cor e mais estreitas, uma para cada ano, até o número místico de sete, que dá a liberdade.”

Então os ingleses tinham algumas regras um tanto estranhas para conferir a liberdade, mas antes essa regras que não dar a liberdade! Segundo a nota, o período habitual era dez anos, mas em Morro Velho havia sido reduzido humanitariamente.

Os homens ficavam atrás e vestiam “camisas brancas, coletes frouxos de lã azul, bonés vermelhos __ turcos ou ‘glengarry’ __ e calças de algodão.” página 207, enquanto os “homens de boa conduta” vestiam jaquetas e ficavam à esquerda em ângulos retos com o pelotão das mulheres. Essas jaquetas eram “paletós sem manga de sarja azul, com golas e punhos vermelhos, cintos brancos, guarda-pós com riscos vermelhos nas costuras e os bonés habituais” . E assim eram os escravos que trabalhavam para os ingleses, que além de vestidos e com prazo para suas libertações também recebiam alguma remuneração, de 12 cobres a até 20 cobres, segundo Richard Burton.

Fala mais a frente que os negros faziam uma folia baseada numa “Casa da Água Rosada” que Richard Francis Burton vincula ao Manicongo, roupas suntuosas, com enfeites em cabeça, cintura de penas, e outros enfeites, essa folia passeava pelo povoado e tinha fim aparente na Casa Grande, os foliões usavam máscaras de barbas brancas, deixando claro para mim que era o que conhecemos como Congado!

Em Morro Velho as escravas negras grávidas eram temporariamente afastadas do trabalho, então era um desejo delas ter filhos. Mas a mortalidade de bebês era grande, segundo Richard Burton, diz quem em 1452 escravos, nasceram 16 e morreram 32. Volta a falar das gestões inglesas, retratando as questões que envolviam os escravos negros, mencionando de que também haviam os alugados em outras minas como Cata Branca. Fala que se costumava internar homens e mulheres com “úlceras malignas nas extremidades, agravadas talvez pela água contaminada, que segundo se diz, provoca gangrena nas feridas”. (página 210). As doenças do cérebro e dos intestinos, a disenteria e a pleurisia, e às vezes a pneumonia, e algumas doenças venéreas, estavam entre as moléstias mais comuns entre os escravos!  E assim temos no expedicionário também mais detalhes da situação dos escravos e de como foi a escravidão em Nova Lima. Após isso ele tergiversa sobre a escravidão no Brasil, e reclama da colocação do negro “fora de seu centro étnico“. Devemos lembrar que Richard Francis Burton era um estudioso dos Povos Africanos e que lhe deveria desgostar bastante ver aqui esses povos cativos e sem suas culturas de origem!

Mais a frente ele menciona um Capitão Joaquim Felizardo Ribeiro, como fornecedor de pólvora à Companhia Inglesa, para desmonte explosivo de minas. E que o inglês Mr. Gray era quem preparava as “espoletas de tempo”, sendo outras “espoletas” feitas pelas negras. Diz que ainda não havia sido testada a nitroglicerina nessa mineração. Cita um Mr. Wood aparentemente de Salt Lake City, que era do Departamento de Redução, e um Mr. White junior, como agentes de civilização, responsáveis por um teatro para diversões incluindo menestréis negros, cançonetas cômicas, e outras diversões.

Ainda fala um pouco mais da mina Morro Velho em capítulos sucessivos mas já preparando a continuidade de sua Expedição que se seguiria rumo a Roça Grande que parece ser para os lados de Raposos, citando seu ribeirão, no Capítulo XXIX, e então deixo aqui a leitura parada neste ponto para não sair do propósito desta sessão, não desmerecendo Raposos, mesmo porque nessa épocas as gentes de lá e as daqui ainda eram todas sabaraenses, mas este artigo já está imenso né!

 

BIBLIOGRAFIA

BURTON, Richard Francis. VIAGEM DO RIO DE JANEIRO A MORRO VELHO. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976. (coleção Reconquista do Brasil, Vol. 36). 366 páginas

 

 

 

Licença Creative Commons
O trabalho Nova Lima Redescoberta: Expedição de Richard Francis Burton de Gustavo Augusto Bardo está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://gustavoaugustobardo.wordpress.com/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em https://gustavoaugustobardo.wordpress.com/.

Anúncios
comentários
  1. […] (2) BARDO, Gustavo Augusto.  Nova Lima Redescoberta: Expedição de Richard Francis Burton. Nova Lima: Gustavo Augusto Bardo. URL: https://gustavoaugustobardo.wordpress.com/2016/08/18/nova-lima-redescoberta-expedicao-de-richard-fra… […]